O raio minimalista de Tom Veiga

Autor da coleção Surf Essence da tradicional Lightning Bolt, Tom Veiga fala com exclusividade sobre o seu trabalho conceitual.

por Alceu Toledo Junior, 10/03/2017

O paranaense Tom Veiga é um artista do surf, com paixão pelas cores, curvas e ondas, segundo auto-descrição.

Convidado pela conceituada marca Lighting Bolt, tradicionalíssima desde os tempos em que foi lançada pelo lendário havaiano Gerry Lopez, ele assina a Collab Surf Essence, coleção cápusula de camisetas e calções que levam seu estilo inconfundível.

Em entrevista exclusiva, ele fala sobre o desenvolvimento do projeto.

Como surgiu essa possibilidade de trabalhar com a Lightning Bolt?

Eles entraram em contato comigo no ano passado, convidando para fazer uma collab por meio do escritório deles de Lisboa, Portugal. Fiquei bem feliz com essa oportunidade e aceitei prontamente, pois não queria perder uma oportunidade como essa e fazer um projeto com uma marca com tanta história e conceito como a Lightning Bolt.

Qual o desafio e a satisfação por desenvolver a coleção?

Cada projeto tem sua particularidade, tem seu valor e desafio. Mas no caso da LB tivemos um prazo curto para desenvolver a coleção, pois eles queriam muito levar a coleção para uma feira na Itália e tivemos poucas semanas para desenvolver. Mas fluiu tudo muito bem. Foi ótimo trabalhar com a equipe deles da Europa e deu tudo certo.  E já na feira na Itália vendeu muitos produtos, o que foi um ótimo termômetro para a coleção.

E eu já estava na vibe da LB, conhecia um pouco da essência da marca, pois sempre gostei de assistir Bustin’ Down The Door, uns dos meus DVDs de surf preferidos, com imagens incríveis do inicio do surf profissional e vários surfistas que fizeram parte da história do esporte como Shaun Tomson, Peter Townend, Wayne “Rabbit” Bartholomew e Mark Richards.

E olhava aqueles caras com suas pranchas vermelhas e amarelas com o raio da Lightning Bolt no meio delas deslizando nas ondas do Hawaii e achava tudo incrível e inspirador, prestava muito atenção no conceito. Então, quando comecei o trabalho não foi complicado pegar a linha da coleção para a criação.

Como você descreve a coleção e qual a inspiração?

A Collab Surf Essence é da coleção verão 2017 e nasceu de uma linha ainda mais minimalista do meu trabalho, linhas simples que desenham grandes ondas, swell e puro surf.

Eu tive total liberdade para trabalhar as artes dessa coleção e o processo criativo foi bem livre. Foi incrível trabalhar em conjunto com a equipe da LB Europa. As artes tem um linha mais clean e moderna, a essência da base da minha interpretação das ondas, uma forma ainda mais simples de refletir meu trabalho, usando, às vezes, só contorno; às vezes uma arte mais iconográfica e, em outras, artes apenas com curvas e cores. Acabou ficando uma Collab bem completa com várias t-shirts e boardshorts.

Depois de trabalhar com a Billabong e a Lightning Bolt, quais os próximos passos de sua carreira?

Graças a Deus, tive alegria de assinar projetos com várias marcas, como Billabong da Europa, Reef e Globe da Califórnia, Havaianas e Mormaii no Brasil. E agora também com a Lightning Bolt. Mas, desde janeiro estou trabalhando com uma empresa de licenciamento aqui no Brasil.

O próximo passo é atingir novos públicos com meu trabalho e não só com o surf, pois tem muitas empresas que entram em contato com os mais diversos produtos e materiais querendo fazer algum projeto em conjunto. Então, para eu me concentrar nas artes e no processo criativo de novas coleções de artes, exposições e viagens, agora deixo essa empresa cuidar disso para mim.

E a ideia é levar a arte do surf para todos os públicos. Isso já aconteceu quando assinei a coleção com as Havaianas, mas agora quero fazer com outros produtos e marcas também para aproximar nossa cultura de todos.

Como analisa a evolução do seu trabalho?

A evolução está sempre acontecendo. Tenho os meus primeiros rabiscos de ondas feitas em 2009 e vendo a cada ano posso notar muita evolução e acredito que todos em suas profissões precisam evoluir. Tenho sempre estudado coisas novas, feito artes novas e experimentado novas técnicas.

A cada momento tento crescer em algo. Quando meu trabalho nasceu era apenas digital, ou seja, eu desenhava no papel e finalizava as artes no computador. Mas depois de um tempo sentia necessidade de ir para a tinta. Então comecei a estudar uma forma de refletir meu desenho em pintura e nasceu então minha série pintada Prancha em Cores, série de pranchas que pintei para um tour de exposições.

Também comecei a usar madeira de descartes dos barcos de pesca de Garopaba para criar minhas artes usando as próprias cores e texturas originais do barco, algo novo também. Sempre temos que sair do lugar e tentar romper nossos próprios limites. Isso gera novidade, gera vida e temos que refletir vida no que fazemos.

Não dá para estacionar em nenhuma área da nossa vida.

E o mercado brasileiro, muitas solicitações?

No Brasil, temos vivido um tempo de dificuldades financeiras e as vendas caíram sim, mas temos que nos reinventar. Às vezes não se vende uma arte original com um valor mais alto, mas vende uma reprodução menor com um valor mais baixo. Tenho tido muitas solicitações de criação de painéis para restaurantes, logomarcas no meu estilo de trabalho, pranchas pintadas decorativas, encomendas de quadros e isso é ótimo. Temos que trabalhar e não podemos parar. Hoje, muitos não podem investir o que se investia antes, mas vemos caso a caso e vamos negociando e trabalhando. Nada melhor do que ver o cliente feliz e o trabalho ser feito de forma justa, ou seja, bom para ambos.

Num momento de incertezas econômicas, como você entende os investimentos em novos artistas e o surgimento de novos espaços culturais?

Mesmo em um cenário mais complicado, penso que as empresas não podem deixar de investir em espaços culturais, eventos culturais e investir em artistas, pois acho que a arte sempre vem para agregar, sempre vem para somar e trazer uma vida no lugar aonde ela está inserida.

Tenho visto algumas marcas valorizando parcerias com artistas e isso dá uma oxigenação nova nas coleções. Também tenho visto novos espaços culturais nascendo e movimentando com exposições, intervenções e apresentações. E isso tem muito mais valor do que qualquer ação comercial, pois a arte agrega à vida e à cultura das pessoas.

Então, não podemos tirar isso dos orçamentos. Temos que valorizar a arte, pois a arte muda um lugar, muda uma situação, transmite suas mensagens e traz uma vida em meio ao caos muitas vezes. Também falo para quem está começando que os artistas não podem desistir. O cenário não é dos melhores, mas isso acaba trabalhando ainda mais nossa criatividade para conquistarmos nossos espaços.

O ano é difícil, mas com Deus ajudando vamos com tudo.

 

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