Surfing, fim de uma era

Depois de passar de boato para realidade, é anunciado o encerramento da Surfing Magazine.

por Redação Almasurf, 25/01/2017

O sonho acabou para os leitores e colecionadores da revista americana Surfing, uma das mais tradicionais dos EUA ao lado da eterna rival Surfer.

Nesta terça-feira foi anunciada oficialmente a sua descontinuidade e coube ao site Surfline destacar a notícia com um belo editorial.

O site americano traz uma entrevista com Matt Warshaw, autor e curador da Encyclopedia of Surfing and History of Surfing, assinada por Dashel Pierson, reproduzida a seguir.

Na conversa, Warshaw faz algumas considerações sobre o histórico de rivalidade entre a Surfing e a Surfer e destaca a modernidade do projeto Surfing, marcado pela arte e psicodelia da época, bem como pela abordagem futurista das short boards que vieram para ficar ao final dos anos 60 e marcaram uma revolução em constante andamento no esporte.

Ao final, ele não entra em detalhes sobre aspectos econômicos envolvendo a operação, mas faz uma análise da natureza da crise na mídia como consequência da explosão digital.

Já no rodapé, faz revelações surpreendentes ao informar que hoje ganha menos dinheiro do que em 1985, quando era um editor colaborador da Surfer.

Perplexo diante das revoluções tecnológicas que destróem mitos, ele não tem resposta para quem busca uma conexão com o dinheiro no bolso: "Há pessoas que me pedem conselhos para as suas carreiras e eu estou completamente perdido", admite. 

Confira abaixo a íntegra deste importante capítulo da história da mídia internacional. 

Revista Surfing encerra atividades e deixa um legado de 50 anos de publicações

Depois de mais de 50 anos de publicações, o capítulo final da revista Surfing está encerrado, terminando com uma mídia gigante do surf, apontando para um iminente e frio futuro de morte para a mídia impressa.

Vários rumores circularam na indústria há algumas semanas no sentido de que a revista estava em seus últimos dias. Falou-se de alterar a a circulação para trimestral e aumentar o foco online. Mas, finalmente, na segunda-feira, foi noticiado que a revista será fechada. E aí começaram as homenagens de todos os lados, especialmente por meio dos surfistas que pagaram tributo à revista que lhes deu vida.

Ao longo de suas décadas Surfing especializou-se em ditar as tendências modernas de surf. Eles deram voz à juventude, jovens e inovadores. O lugar onde o "core surfer" poderia aplacar a sua sede.

Mas, como um resultado deste caminho, a exclusividade do seu público, a revista estava à sombra de seu rival e pioneiro desde 1960, a revista Surfer. De acordo com o que uma fonte disse ao Surfline, alguns funcionários vão mudar de escritório e começar a trabalhar justamente na Surfer, já que ambas as revistas são de propriedade da Enthusiast Network.

Para um jornal como a nossa, esta notícia nos faz sentir como se alguém tivesse morrido na família. Claro, eles eram concorrentes, mas era uma rivalidade amigável. A rivalidade entre irmãos, afinal, vários de nós trabalhou lá e este desfecho nos entristece.

A Surfing sobreviverá em um número infinito de fotógrafos, escritores, surfistas e fãs. Inclusive nós mesmos.

Para ter uma idéia do que fica por trás do legado deixado pea revista, entrevistamos Matt Warshaw, historiador do surf.

Qual a importância Surfing para a cultura ao longo dos anos?

A Surfer precisava de um concorrente e este foi a Surfing. Os dois primeiros anos foram os mais importantes. Surf Guide foi, provavelmente, a melhor revista em 1964, pouco antes de a Surfing surgir. A Surf Guide chegou a constranger e Surfer e quase tomou a dianteira. Mas John Severson usou seu poder para acabar com a Surf Guide e roubou seus melhores funcionários. Deus, Severson era um cara pesado. De qualquer forma, em 1965, a Surfing, sozinha, foi um desafio, mas num distante segundo lugar.

Como ela competiu com a Surfer?

Em 1967, ele contratou um novo diretor de arte que fez algumas coisas um pouco mais piscodélicas, e todo o pessoal da redação investiu na cobertura da revolução das short boards. Isso fez Surfer parecer antiquada em comparação. Apenas algumas edições foram o suficiente para mostrar que revista era cool, enquanto a concorrente era quadrada.

Qual foi a melhor publicação da Surfing?

Um artigo na década de 80, chamado de "Big Time". Tom Curren, Dave Parmenter e Flame em Todos Santos. As fotos foram excelentes, Dave escreveu eloquentemente, Tom surfou forma bonita e esse foi o momento em que todos nós aprendemos que Waimea não foi o único grande onda ao redor. Foi o primeiro artigo sobre Todos Santos, mas realmente colocou o lugar no mapa. A outra grande sacada da Surfing foi contratar Evan Slater como editor, acho que em 2001. Ele estabeleceu em sua equipe pessoas excelentes, os melhores do mundo, ouviu os outros, mas manteve a mão firme no leme. Evan foi certamente o perfeito editor de revistas.

Como a perda desta revista afeta a cultura, ou isso afeta alguma coisa?

Em nada neste momento. Exceto confirmar o que tem sido evidente, que a velha maneira de fazer revistas está acabada. Uma revista mensal fazia sentido antes da Internet. Não mais. Imprimir é um nicho, como o LP de vinil. As longas leituras ainda ficam melhores no papel. Esta é a única vantagem de imprimir, o fato de que algumas pessoas, como os amantes dos LPs, ainda querem o objeto em suas mãos. Mas a rede tem todas as vantagens visuais e a maioria das vantagens do que queremos para ler: O resumo de um evento, o swell de último fim de semana, notícias do setor. Recebemos essas coisas na web há já 10 anos. É de surpreender que a Surfing tenha durado tanto tempo.

Que papel você acha que as revistas desempenham hoje na era digital?

A única chance é oferecer formatos grandes. Fazer o que você não pode fazer online. Tentar melhorar o que o Surfer`s Journal faz. Algo que eu acho que é completamente impossível.

Em termos da dialética hegeliana, qual foi a importância da Surfing para o sucesso da Surfer?

E vice-versa. A concorrência tornou melhor as duas revistas.  

Em que momento a Surfing foi líder na cultura, ou pelo menos a mais influente para dizer o que estava acontecendo?

Surfing dominou em 67, em meados dos anos oitenta e meados de 2000. No mais, a Surfer prevaleceu e as revistas também se nivelaram por alguns anos.

Onde você enxerga o começo do fim? Quando ambas eram feitas pelo mesmo editor, redes sociais ou na Internet em geral?

Internet em geral. Quando eu era criança, Surfing e Surfer saíam a cada mês. Um filme de surf chegava à cidade de vez em quando, mas somente as revistas saciavam nova sede de surf na mídia. Uma alegria era a chegada de uma nova revista. Fechava a porta do banheiro e dizia me deixem em paz, mamãe e papai, não existo por uma hora, e eu não estou masturbando. Algumas pessoas da minha idade podem repetir legendas que foram lidas ha 40 anos, porque você lia a mesma revista 50 vezes, cada detalhe, cada foto, cada palavra. Hoje, os conteúdos estão online e oferecidos como em um buffet, onde você pode comer de tudo todos os dias. Eu acho que aqui temos o problema ao contrário. Você deve tentar filtrar essa informação, mas é difícil beber água direto da mangueira dos bombeiros.

Sendo uma pessoa de sucesso, quais seriam as alternativas para os jornalistas e fotógrafos que perderam seus empregos?

Sucesso? Só porque eu sou casado com uma mulher que trabalha no Amazon e patrocina o meu hobby para ter um site? Honestamente, não tenho idéia. Eu ainda tento fazer as coisas. Há pessoas que me pedem conselhos para as suas carreiras e eu estou completamente perdido. Durante anos, décadas, todas as ondas possíveis vieram em minha direção, e eu estou aqui, em 2017, ganhando menos do que quando era um editor contribuinte da Surfer, em 1985.

Fonte Surfline

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